Tive Depressão

Foto: Thayse Lopes

Foto: Thayse Lopes

Aos 22 anos de idade, tive a infelicidade de estagiar em um lugar que me consumiu quase de uma vez. Como se não bastasse o local em si ser opressor, acabei me envolvendo com o meu chefe. Ele era 10 anos mais velho do que eu e, como pode se esperar de relações de homens mais velhos com mulheres que ainda estão acendendo à vida adulta, como era o meu caso, em seus discursos ele sempre se colocava como um homem vivido e que, portanto, eu tinha que dar ouvidos a tudo que ele dizia ou ensinava. E foi assim que eu tive depressão.

Nessa época, eu estava bastante infeliz com o meu trabalho, em dúvida com a profissão, até com a minha religião. Passava pelo que chamam de crise existencial e tive a má sorte de conhecê-lo nesse período. Eu nunca podia ter uma opinião contrária ou convicções diferentes das dele. Mesmo quando eu achava que estava certa, ele contornava a situação de modo que eu sentisse que estava errada. E me sentia tão errada que cheguei ao ponto de me envolver mais e mais para aprender a “ser gente de verdade”. Comecei a ler as coisas que ele lia (dizia que meu texto era ruim e precisava fazer outras leituras), a duvidar cada vez mais da minha religião (me zombava por acreditar em Jesus) e a achar que eu realmente era uma profissional ruim (já chegou rasgar um trabalho feito por mim na minha frente). Ele destratava toda a equipe (éramos todas mulheres), mas acredito que eu sentia um pouco mais justamente por ter uma relação amorosa com ele. Percebia que ele se aproveitava de seu poder de chefe para me controlar o quanto pudesse, e talvez por não ter maturidade suficiente, eu deixava. Me sentia realmente péssima, mas procurava formas e mais formas de ser alguém melhor de acordo com suas determinantes, que segundo ele mesmo faziam o caminho mais correto. Ele dizia que eu era louca, egoísta e desleal e que precisava ir a um psicólogo, que eu precisava me tratar. Pensei sobre isso e, uma vez mais, fiz o que ele havia sugerido.

Comecei a frequentar a terapia uma vez por semana. Logo nos primeiros minutos da sessão, a doutora fez a fatídica pergunta: “o que fez você vir aqui?”, e a primeira coisa que contei foi sobre essa relação e a cada consulta, mais da metade do tempo eu falava sobre ele, ele, ele e menos de mim. A princípio ela não me cortava, me deixava falar e falar sobre o que quisesse e como me sentisse mais à vontade. Por outro lado, meu envolvimento com ele ia de mal a pior, tanto na esfera pessoal quanto profissional. Ele ficava cada vez mais distante, me ignorava, e eu me culpava mesmo sem saber ao certo por que ele estava agindo daquela forma. Até que certo dia tivemos mais um conflito no trabalho e ele me demitiu. Eu já estava cada vez mais fraca emocionalmente e isso fez com que eu me sentisse o maior lixo de ser humano. Achava que era pouco para ele, para a profissão que tinha escolhido e isso foi o suficiente para que eu começasse a apresentar mais sinais de depressão.

No dia da demissão, eu saí do trabalho arrasada. Lembro que tinha uma prova inadiável no dia, mas precisei faltar porque não tinha condições emocionais para fazê-la. Não fui e acabei reprovando. Liguei para um amigo e pedi para que me encontrasse em algum lugar porque eu precisava muito conversar. Ele sabia parcialmente da história, havia contado a ele apenas sobre as primeiras investidas do então chefe, mas nesse dia eu contei tudo que aconteceu, chorei, chorei, chorei e ele me consolou. Eu estava tão abalada que nem lembrava que era o aniversário da minha melhor amiga. No outro dia, quando estava um pouco melhor, liguei para ela e pedi mil desculpas e expliquei o que havia acontecido. Ela, que conhecia mais a fundo a história, entendeu e chorou comigo.

Você pode até pensar que eu estava fazendo muito drama pela demissão de um estágio, mas aquilo era carregado de significados — não bastasse eu já estar com diversos conflitos emocionais, estava apaixonada por um homem que me tratava abusivamente, este homem me demitiu, fazendo com que eu acreditasse que eu não tinha capacidade para ser uma profissional do ramo e ainda me convenceu que a decisão que ele havia tomado era a melhor para a minha vida. Como pode uma pessoa ter tanto controle sobre a vida do outro?

Eu precisava entregar a primeira parte do meu TCC e não tinha conseguido escrever uma linha sequer, e só faltavam 3 meses para o fim do semestre. Foi aí que conversei com meus pais e disse que precisaria ficar esse tempo sem trabalhar para concluir o semestre, eles aceitaram e então me afundei no processo de queda e ascensão.

Os primeiros dias foram péssimos. Nas primeiras semanas não consegui escrever nada porque não tinha ânimo nem força. Chorava muito, só queria ficar deitada, sem fazer nada, sentia um imenso vazio e isso refletia no meu exterior. A depressão tomava conta de mim. Um dia minha mãe chegou mais cedo em casa e me viu naquele estado. Pediu para que eu me olhasse no espelho e visse como eu estava acabada, triste, que precisava dar a volta por cima e não me entregar para aquela situação. Mas eu não via mais sentido na vida. Pensava que mesmo que me reerguesse e voltasse a trabalhar e estudar, de que valeria se um dia eu ia morrer e tudo teria sido em vão? Não me parecia lógico. Cheguei a um ponto em que quis morrer. Não me importava continuar viva ou não, achava que a minha presença era indiferente e que mesmo que fizesse muito enquanto viva, a morte chegaria em algum momento e isso só anulava minha expectativa de futuro. Comia pouco, emagreci uns 3 ou 4 kg, mas ainda assim me esforçava para estar presente em eventos de amigos, mesmo que fosse contra a minha vontade. Me forcei a comemorar meu aniversário também, embora sentisse uma tristeza no peito. Andava pelas quadras da minha cidade sentindo um vazio por dentro, me perguntando onde aquele que me fez tudo aquilo estava, e qual era o sentido de passar por tanta atrocidade. Lembro que essa foi a época que mais questionei os acontecimentos da vida.

No entanto, tinha um único dia que me fazia ficar feliz: a quarta-feira, quando eu ia para a terapia. Vez ou outra a doutora era dura comigo, dizia que eu precisava falar do que estava sentindo e não apenas as coisas que aconteciam ao meu redor, não apenas dele. Dizia que eu precisava me desprender do outro para conhecer melhor a mim mesma, e que só assim ia conseguir resolver minhas questões, que não existia uma receita pronta. Ainda que eventualmente ela brigasse comigo, aquele era o local que eu mais gostava de frequentar porque era onde eu me sentia acolhida, livre para chorar e desabafar, onde podia falar de tudo que estava sentindo sem ser julgada. Nessa época comecei a levar outras questões para as sessões, como problemas familiares e traumas de infância, e então percebi que de fato o buraco era bem mais embaixo. A terapia me fez descobrir quem eu era de verdade e o que esperava do mundo. A gente sempre acha que sabe, mas percebe que não quando vêm questionamentos pessoais que você não sabe responder. Foi doloroso, cada dia de sessão eu chorava por algum motivo, mas com o passar do tempo fui melhorando. Como? Fui me descobrindo. Quando percebi que correr me trazia uma sensação boa, me dediquei a correr 3 vezes por semana. O ballet clássico, que era um sonho de infância e que há poucos meses tinha conseguido iniciar, foi tomando um pouco mais de espaço em minha vida. Percebia que com ele eu tinha um encontro interior, como se o mundo não existisse enquanto eu estava dançando ou fazendo exercícios na barra. Outro prazer que descobri na época foi o de fazer doces, passei a praticar com alguma frequência. Mas tudo isso correspondia a uma pequena parcela da minha semana, o resto do tempo eu precisava me ocupar com outras coisas para não surtar. Comecei a enfim escrever o meu TCC, nisso eu tinha só um mês e meio para finalizá-lo, e era um grande esforço passar o dia escrevendo e uma vez por semana ir à orientação. Mas mantendo a mente ocupada, eu percebia que me distraía das minhas dores, então fui melhorando.

Em todo esse tempo, eu cheguei a procurar meu ex-chefe e ele também a mim. Meu projeto era focado na minha área de atuação, uma espécie de associação para unir e ajudar a capacitar os profissionais da cidade. Ele sabia e claro que disse que o projeto não daria certo, que eu não tinha talento para liderar, que era melhor deixar para lá. Pensei sobre isso, mas fui resistente às suas palavras. Paralelo a isso me chamaram para um novo estágio, em uma empresa bem menor que a anterior. A princípio tive muita resistência, embora estivesse conseguindo me reerguer não sentia confiança para trabalhar na área novamente. Mas minha mãe e doutora me encorajaram, e aceitei. Certamente uma das melhores escolhas que fiz, pois lá dentro consegui desconstruir todo o medo que tinha de assédio e da própria prática da profissão, traumas provocados na minha experiência anterior. Eles apoiaram muito o meu projeto também e como eu não queria que ele ficasse engavetado, fui aproximando profissionais para estarem comigo. Teve um dia que consegui reunir diversos para apresentar o projeto — inclusive ele estava lá –, muitos se interessaram e quiseram entrar junto para desenvolvê-lo, bem do jeito que eu queria, coletivo. Conforme foi crescendo e tomando projeção, o ex-chefe quis estar junto, mas quando viu que eu já não dava ouvidos para tudo o que ele dizia e, portanto, o projeto estava conforme o que EU acreditava ser ideal, quis se afastar e ainda disse que eu não daria conta do recado. Ainda bem que ele estava muito enganado.

Hoje, graças a tantas variáveis, consegui superar o trauma daqueles meses. Agora tenho 25 anos, ainda faço ballet e amo, até ganho dinheiro com os doces que faço, virou hobby mesmo. Além disso, consegui dar vida e desenvoltura para o meu projeto que antes era TCC e depois virou profissional — ainda é. Por meio dele, inclusive, consegui meu atual emprego na área.

Fiz terapia por 1 ano e 7 meses e hoje, depois de ter deixado, dou a ela todo o mérito da minha superação. Pude não apenas me conhecer, mas também sair um pouco da minha bolha e entender melhor o outro, um exercício de empatia mesmo. Podemos evitar muito mal até a nós mesmos se tivermos a capacidade de olhar além do nosso próprio umbigo. Num dos meus últimos dias, disse isso à minha doutora, que devia às sessões a minha recuperação. Ela ficou bem emocionada e falou que estava muito feliz porque viu o quanto eu havia evoluído desde a primeira consulta: roupas mais alegres, novo corte de cabelo, histórias mais divertidas e até uma postura mais aberta, não necessariamente o fato de estar com a coluna mais ereta, mas porque antes eu me curvava como se estivesse me escondendo, um mecanismo de defesa; depois passei a ter mais segurança em minhas ações e isso se revela até na postura. E se resgatar a melhor versão de quem realmente somos não for o grande objetivo da terapia, qual é? Não precisamos ficar aprisionados a ela a vida inteira, mas tempo o suficiente para que consigamos andar com passos mais firmes, e esse tempo varia de pessoa para pessoa.

Hoje, se posso dar um conselho, sugiro não esperar a depressão apresentar o primeiros sinais para ir a uma consulta. Trata-se de um processo de auto-conhecimento, portanto, só evita que coisas ruins aconteçam, pois aprendemos a lidar melhor com as adversidades de nossa existência. Sejamos a favor da vida física, mas sobretudo, de uma vida emocional saudável.

Dani Lima

ps: a pedido da autora, não a identificamos nesse texto.


Publicado em: 6 de março de 2016

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