O pânico me tornou uma pessoa melhor

Lais

Por Laís Vieira

Meus primeiros sintomas do pânico apareceram no segundo semestre de 2015, numa época que eu estava muito ansiosa e me cobrando muito. Começou com recorrentes dores no peito. Fui ao hospital checar e, segundo o médico, não era nada. Continuei sentindo essas dores e, então, marquei um cardiologista, fiz todos os exames e meu coração estava saudável, e ele me alertou que poderia ser ansiedade.

Uns dois meses depois, veio a primeira crise, antes de uma entrevista de emprego. Meu braço esquerdo começou a formigar e senti muita dor no peito, achei que estava enfartando. Veio aquele desespero e medo, minha mãe estava em casa e eu falei pra ela o que estava sentindo, então fomos para a emergência. Fiz mais exames e estava tudo bem. Em janeiro, tive a segunda crise na casa de uma amiga onde fui dormir. Acordei por volta das 5 horas da manhã com o coração acelerado em nível assustador, dor no peito, formigamento, medo, parecia que estava tudo numa frequência diferente, queria ir embora dali, e fui, direto para a emergência, e mais uma vez, meu coração estava ok, segundo o médico.

A partir daí tudo mudou, eu tinha medo de tudo, as coisas estavam diferentes, eu sentia muito o sintoma de desrealização, parecia que tudo a minha volta era de mentira, eu duvidava sobre a realidade das coisas, parecia um sonho ou pesadelo, achava que estava ficando louca, ficava o dia inteiro desejando a hora de dormir, porque só dormindo eu tinha paz.

Justamente nessa semana de tormento comecei a trabalhar, fiquei muito tensa porque achava que não ia conseguir, mas fui, e não foi nada fácil. Fingia que estava tudo bem. Durante toda a semana eu tive crises atrás de crises, no trabalho mesmo, mas eu não me permitia demonstrar para os outros, ia ao banheiro e chorava, e voltava como se nada tivesse acontecido. Eu não contava para outros o que estava sentindo, mesmo para os mais próximos, porque tinha medo de ser chamada de louca, e que ninguém entenderia o que eu estava sentindo.

A desrealização foi o sintoma que mais me atormentou. É terrível, eu acho pior que as crises em si, porque é algo insistente, eu sentia medo de tudo, de olhar para as pessoas, para o céu, de dirigir, medo de não voltar a ser como era, de ficar louca, de não sair mais de casa. Eu me olhava no espelho e não reconhecia aquela pessoa que eu via, era pavorosa aquela sensação, e eu chorava todos os dias. Cheguei a pensar que tinha morrido e estava vagando pelo mundo de tão bizarro que era aquele sentimento.

Eu estava desesperada para melhorar e disposta a fazer qualquer coisa, busquei vários tipos de ajuda, acupuntura, psicólogo, exercícios físicos, floral, meditação e espiritual. Fui ao psiquiatra também, ele me passou remédio, mas, a princípio, eu não quis, queria melhorar sozinha e com métodos alternativos.

O primeiro mês de trabalho foi bem complicado, eu viajava a semana inteira, fazia horas extras todos os dias, trabalhei aos sábados, e não tinha tempo para nada e, principalmente, o meu tratamento ficou de lado. Meus pais começaram a me pressionar para sair do trabalho porque eu estava cada vez mais desanimada, angustiada e sem tempo para cuidar da minha saúde mental. Eu resisti um tempo, não queria aceitar que aquilo estava me dominando a ponto de ter que largar um emprego, isso me fazia pensar que estava sendo fraca e mimada, mas acabei cedendo, totalmente contra a minha vontade, e pedi demissão. Nesse tempo, perdi peso, fiquei sem ver meus amigos, me isolei.

Depois que saí desse emprego, melhorei um pouco, e logo fui chamada para outra entrevista, consegui e depois de duas semanas, já estava trabalhando novamente em um trabalho mais calmo, não viajava, trabalhava 8 horas por dia, o que me dava chance de me tratar. Aos poucos, os medos ficaram menos intensos, recuperava a confiança em mim mesma e parava de ficar me policiando o tempo inteiro, saí algumas vezes e consegui me divertir.

Depois de mais ou menos um mês no novo trabalho, aconteceu algo que tirou meu chão, houve um suicídio no prédio comercial que eu trabalhava. Eu fiquei desnorteada, aquela cena não saía da minha cabeça, não conseguia mais me concentrar no trabalho, as crises de pânico que não tinha há tempos, voltaram com tudo. Eu comecei a ter um medo absurdo de enlouquecer, de fazer algo parecido com o que eu tinha visto, de fazer algo que eu, em sã consciência, não faria, o medo de perder o controle. Pedi demissão de mais um trabalho, não conseguia mais ficar lá, eu estava desesperada para nunca mais voltar naquele lugar.

Fiquei uns dias com um medo constante, não ficava sozinha de jeito nenhum, queria sempre alguém perto de mim pra ter certeza que eu não ia perder o controle de mim mesma e fazer uma besteira, dormi com a minha mãe por um tempo, era um aperto no peito 24 horas por dia, muita angústia, tristeza, emagreci mais pela perda de apetite. A minha mente estava incontrolável e trabalhando numa velocidade que meu corpo não acompanhava, só vinham pensamentos de coisas ruins que poderiam acontecer comigo e eu não conseguia sair desse ciclo. Com certeza, foi a pior semana da minha vida.

Dias depois, comecei a medicação com um antidepressivo. Decidi tomar porque eu não tinha forças para ter todo o progresso dos últimos meses de novo, sem remédio, precisava de ajuda, dessa vez. Os primeiros três dias eu senti muito os efeitos colaterais, muita tremedeira, queimação no estômago, sudorese, e tendo algumas crises, depois isso passou. Porém, só fui sentir o efeito benéfico do remédio cerca de três semanas depois. E aos poucos, com muita paciência, dando pequenos passos diariamente, fui voltando a sair da “caverna”, perdendo o medo de dirigir e de sair, e atualmente, digo que estou 80% melhor, cerca de 4 meses depois que tudo começou e pouco mais de 1 mês com o remédio.

Ainda tenho alguns sintomas, receios, uns incômodos ao sair de casa, mas numa intensidade muito menor, tenho dias melhores e dias piores, mas aquele medo muito intenso, desrealização e crises de pânico já estão desaparecidos há um tempo. Estou educando a minha mente e tentando ter pensamentos positivos. Quem tem a síndrome do pânico sabe o quanto ficamos presos naquele ciclo de pensamentos negativos, e é nisso que a terapia me ajuda muito, a me dar argumentação para discutir com a minha própria mente. É cansativo, mas com paciência, vai ficando mais fácil e natural.

Atualmente, que já estou muito melhor, olho pra trás e percebo como tudo isso me mudou e me ensinou. Em uma vida inteira, eu não aprendi tanto como nesses últimos quatro meses. Sempre tive muitos defeitos, ansiosa, estressada, impaciente e teimosa, queria que as coisas acontecessem no momento da minha vontade, o mundo girava em torno do meu umbigo. E digo, sem dúvidas, que o pânico veio para eu me dar conta de como eu encarava a vida de forma errada. As coisas, que antes eram banais para mim, hoje têm um gostinho diferente. Ir ao shopping, cozinhar, dirigir, ficar sozinha em casa, sair com os amigos, etc. Tudo, por mais bobo que pareça, têm um grande valor para mim agora, porque foram coisas simples que eu temi nunca mais ser capaz de fazer,

Eu sei que quando estamos mal é difícil ver o lado positivo disso, mas depois que os dias doloridos forem diminuindo, olhe pra trás e perceba o quanto você aprendeu, se conheceu e mudou para melhor, tire uma lição disso tudo, porque a síndrome do pânico é uma lição de vida.

Nunca, em toda a minha vida, eu achei que eu fosse ter contato com tanta dor, é difícil quem não passou por isso entender, somente via palavras, a dimensão desse sofrimento e o quão difícil  é estar em constante luta com a própria mente, somente quem sente na pele sabe o inferno que é.  Nunca imaginei que a minha mente, um dia, iria me trair dessa forma e me fazer refém de mim mesma. Foi a fase mais turbulenta da minha vida, todos os meus outros problemas ficaram minúsculos perto disso, eu vivia angustiada e exausta. Mas mesmo assim eu tinha que acreditar que tinha solução, eu me forçava a ter fé na minha cura, que era só uma fase muito difícil para minha própria evolução, eu acreditava nisso veemente, e era o que me dava forças para seguir em frente, e não me deixar dominar pelos pensamentos ruins. E olhando para trás, eu vejo que foi isso mesmo, foi uma chacoalhada para eu dar um pause, olhar para mim, mudar meu ritmo e todas as certezas e parâmetros que eu tinha da vida.

Procurar ajuda é muito importante, não passe por isso sozinho, procure um psiquiatra, aproxime-se das pessoas que você se sente bem e têm confiança, métodos alternativos, como meditação, yoga e acupuntura, e, principalmente, faça terapia, é o que nos muda, em 4 meses é impressionante o que a terapia fez em mim, eu que sempre duvidei do efeito benéfico desse tratamento, achava que psicólogo era frescura de gente rica. E se for o caso, apegue-se a Deus, eu estava afastada do meu lado espiritual há muitos anos, mas na hora do “perrengue” foi para Ele que corri, e me senti muito acolhida.


Publicado em: 16 de maio de 2016

8 Comentários


  1. Sissa disse:

    Parabéns pelo relato, me identifiquei em mts coisas. Tb me sinto uma pessoa melhor. É como dizem.. a gnt aprende mt com o sofrimento. Melhoras aí, fique com Deus!

  2. Camila disse:

    Parabéns por dividir sua história e ajudar muitas pessoas que têm de enfrentar essa terrível luta contra a mente.

  3. suelen disse:

    Laís, nossa, parece que sou eu. Quando li seu relato me vi totalmente. Tenho muito medo de enlouquecer. Quando fico triste, entro em pânico com medo de pensar em me matar. Nunca pensei nisso, mas só o fato disso poder acontecer, já me desespera. Tenho bloqueio com remédios. Ainda não sei o que fazer, mas saber que vc melhorou, mesmo estando igualzinha a mim, me dá muito esperança. Faço tudo sozinha. Saio, vou ao centro, trabalho, faço outras coisas, mas tenho pequenos mal estares durante o dia, coisa que disfarço na frente dos outros. Parece que estou vivendo em um mundo só meu, sozinha. Só eu conheço os meus problemas e tenho muito medo disso. Queria mais dicas de como melhorar. bjos, Suelen.

  4. Evelyn disse:

    Me identifiquei totalmente com o texto e me conforma saber que eu não sou a única pessoa que sofre desse mal. Comecei a fazer terapia, tomo remédio homeopático e vou sempre ao centro espírita.

  5. Thaina disse:

    Muito Obrigada por relatar o que você passou!. Me identifiquei bastante. Minhas crises começaram há exatamente uns 10 dias, antes disso vivia com depressão, mas não procurei ajuda. Meu maior medo é enlouquecer, não voltar a ser a pessoa que eu era antes. Eu olho para trás e vejo a pessoa horrível que eu era, estressada, autoritária, e isso parece que aumenta ainda mais o meu medo de ficar louca. Quando vejo uma notícia ruim, parece que poderia ter sido eu ter feito aquela besteira sabe, eu t

    • Thaina disse:

      Eu tô com muito medo, mas lendo sobre tudo o que você passou, eu fico mais aliviada. É como se fosse uma luz no fim do túnel. Vou ao psiquiatra amanhã e tive terapia ontem com a psicológa, e mesmo achando que eu não mereça ajuda, pedirei à Deus para me curar. Preciso melhorar, minha mãe não merece me ver assim, as pessoas que me rodeiam não merecem! Muito Obrigada. E que possamos superar tudo isso e tirar esse mal de nossas vidas.

  6. marcus vinicius disse:

    Parabéns , sofro a alguns anos de síndrome do pânico pedir empregos , não ando mais sozinho e assim vai, tomo remédios ela vai embora e depois volta com tudo, mas decidi que vou conseguir a cura acredito em Deus.


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