Psicofobia e os acumuladores de crises

Psicofobia

Por que temos medo da loucura? Arrisco dizer que é porque nunca fomos colocados em contato com ela. Temos medo do que não conhecemos. Já estive cara a cara com três esquizofrênicos na minha vida: um eu cresci convivendo, outra é um doce de velhinha e o último estava atrás das grades e tinha matado a mãe durante um surto. Não me senti ameaçada por nenhum deles. Mas isso não diminuiu a angústia e a ansiedade antes de cada encontro.

Ao ler Holocausto Brasileiro de Daniela Arbex, entendi melhor o que define o padrão de loucura no Brasil. 70% dos pacientes da Colônia, maior manicômio da história do país, não tinham nenhum diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, entre outras personalidades indesejadas. Os que chegavam sem nenhum tipo de transtorno, devido à degradante condição de vida que levavam, acabavam por desenvolver algum. Só de olhar as fotos, sou capaz de apostar que, estando lá, alimentaria mais bichinhos internos além dos do que eu trato com ansiolítico e terapia <3 .

Dados do Ministério da Saúde, indicam que o problema é crônico e multiplicável e que, a sociedade não querer lidar com a depressão, o transtorno bipolar, a esquizofrenia, o transtorno obsessivo-compulsivo, entre outras doenças, é não aprender a lidar com ela mesma. O Ministério da Saúde estima, com base na Pesquisa Nacional de Saúde (2013), que 14,1 milhões de brasileiros apresentem diagnóstico de transtornos ou sofrimentos mentais.

Ninguém quer ser considerado louco. Aliás, todo mundo quer. Ninguém quer ser careta, certinho, nem andar tão na linha. Mas aquele “louco” que toma remédio, tem acompanhamento psicológico e passa por crises, ninguém quer ser esse cara. Quantas pessoas você conhece que vão ao psicólogo e ao psiquiatra? Quantas das pessoas que você conhece que vão, contam que vão? Ninguém quer estar triste, ou doente, não é socialmente cool. Precisar do auxílio de um profissional da saúde para esses casos, ou é tratado como um caso muito sério (digno de camisa de força), ou um caso muito bobo “vai beber que passa”. Na verdade, bobagem é não tratar, já que, se bem tratado, a maioria dos pacientes pode ter uma vida normal. Mas para tratá-lo, é preciso reconhecê-lo e aceitá-lo.

A Associação Brasileira de Psiquiatria com o apoio do Ministério da Saúde, lançou em 2015, a campanha contra a psicofobia. O nome é um neologismo, ou seja, uma nova palavra, proveniente de termos já existentes. “Psico”, do grego, é o termo que indica alma, espírito, mente . “Fobia” é um sentimento exagerado de medo ou aversão a alguém ou alguma coisa. Portanto, Psicofobia foi o  termo escolhido para designar o preconceito, alimentado por medo ou aversão, com psiquiatras e pacientes da área de saúde mental. Um ano antes, o Senador Paulo Davim já havia proposto a PL 74/2014 que propõe criminalizar a psicofobia. A proposta ainda tramita no Senado Federal e sabemos que os abusos e preconceitos continuam acontecendo. Pacientes psiquiátricos perdem emprego, amigos, alguns são excluídos pela própria família. Ao invés de um tratamento correto, que potencializaria as chances de viver normalmente, exclusão é o que se oferece a essas pessoas.

Mais do que leis e programas, precisamos de empatia. Empatia para não nos afastarmos de alguém por causa de um diagnóstico, empatia para não julgarmos quando algum conhecido precisa de remédios controlados, empatia para entender o depressivo, aceitar o ansioso, não excluir o esquizofrênico ou o bipolar do convívio social. Empatia para administrar crises com cuidado e carinho.  Todos podemos tê-las.


Publicado em: 21 de junho de 2016

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