O que não te falaram sobre ansiedade

o-que-nao-te-falaram-sobre-ansiedade

Era um sábado como outro qualquer, ou pelo menos deveria, se não fossem os primeiros sinais: subitamente, o pescoço travou, a voz falhou e a língua travou. Tudo indicava um início de AVC. Corre para o hospital. Nada é diagnosticado. O que não te falaram sobre ansiedade.

Alguns dias depois, um novo alarme. Dessa vez, tomada por um sentimento misto de tristeza e medo, pernas trêmulas e mãos formigantes. Novamente, nenhum problema físico é diagnosticado. Mas dessa vez, o recado: seu problema é emocional, causado por estresse e ansiedade.

E desde então, os dias não foram mais os mesmos. As crises começavam a tomar conta do meu corpo. De novo no quarto, sufocada de cobertas e em pensamentos negativos que invadem a mente. O que pega dessa vez? Mais uma crise. Agora, elas começam a tomar grandes proporções e maiores intensidades: taquicardia, dor no peito, boca seca e tremedeira. Elas tornaram-se constantes no meu dia a dia. Em casa, no trabalho, na rua, no metrô ou num restaurante, ela não escolhe aonde acontecer, simplesmente acontece! No início, as idas ao hospital, ainda que inúteis eram constantes. Depois, a necessidade de ir ao hospital para novamente confirmar a veracidade que aquilo não era algo físico, não existia mais.

No início, não sabia lidar com isso. Ficava submergida por um sentimento de medo, mas logo aprendi a conviver com as crises. Quando despertavam, respirava fundo e esperava aqueles vinte minutos de tormento, pois sabia que durariam somente alguns minutos (por mais que parecesse uma eternidade). Não tinha como vencê-las, mas poderia administrá-las.

O primeiro passo foi procurar o que desencadeou o despertar do monstro. Passava dias procurando motivos, e muitas coisas influenciaram: a cobrança o dia-a-dia, experiências negativas, a correria, o estresse, entre outras coisas.

Em seguida, procurei maneiras de administrar a ansiedade. Comecei pelos paliativos: chás com efeito calmante e florais. Além disso, busquei atividades que me dessem prazer, como a prática de esportes e leitura, por exemplo. E, por fim, a terapia, que foi realmente eficaz.

Destaco sempre a terapia, pois até hoje me acompanha nessa jornada de autoconhecimento (e não estou exagerando). A terapia foi a maneira que encontrei de trabalhar para descobrir meu verdadeiro ser e criar intimidade comigo mesmo, mais que isso: aceitar minhas imperfeições, compreender relação interpessoais, tentar resolvê-las e aperfeiçoá-las, tornando-me uma pessoa mais tranquila e capaz de tomar decisões conscientes.

Uma das maiores dificuldades no início é a aceitação das pessoas de que a ansiedade é um problema e que você precisa de ajuda. E aqui começa a arte dos julgamentos. As pessoas são preconceituosas e ignorantes quando o assunto é esse, acredite. Essa crença infundada de que a ansiedade é sinal de fraqueza e vulnerabilidade é totalmente grotesca. É um grande equívoco tentar definir o que se passa com um ansioso ou o que é melhor para ele, eu sei. Quantos “não é pra tanto” não ouvi. Mas não podemos sofrer em silêncio e temer julgamentos. O apoio da família e de amigos é essencial. Aliás, com isso também percebemos com quem realmente podemos contar.

Muitas vezes, me senti derrotada. Mas com o tempo, aprendi que a derrota é importante também. Agora eu posso começar de novo, já que achei algumas formas de cicatrizar a dor.

O que eu fiz com a minha dor? Transformei numa receita, numa música, num poema e até num desenho. A genialidade está em transformar a dor. Sei que a ansiedade estará sempre aqui dentro, esperando a primeira brecha para se manifestar. Cabe a mim administrar e educar minha mente, pensando sempre de maneira positiva. Respira. Solta. Desvia o foco. Hoje, dou valor a pequenas coisas que me ajudam a superar qualquer trauma e receio que ela volte. Sei que preciso conviver com isso, mas nunca me senti tão forte e otimista. Forte, porque sei que se passei pela síndrome da ansiedade, derivada da luta contra dificuldades da vida, significa que tentei permanecer forte por tempo demais e também, porque tive muita força de vontade para passar por uma fase tão ruim tirando dela uma lição de vida. Otimista, pois se venho lutando contra a ansiedade, me sinto confiante para encarar ainda mais desafios que surgirem. Fui instigada a sair de uma bolha e eduquei meu olhar.

Passei a notar as pessoas de forma mais generosa e ouvi-las mais. Um verdadeiro exercício de empatia. As crises me permitiram um autoconhecimento incrível, fundamental para fortalecer minha autoestima e me fazer uma pessoa mais segura. Aprendi a evitar muita coisa e, principalmente, a viver mais aberta para experimentar todos os sentimentos humanos.

Texto originalmente publicado no Genéricos e Tal


Publicado em: 12 de dezembro de 2016

1 Comentário


  1. Lú Vieira disse:

    Muito bom o texto!
    Me vejo em cada letra…
    Confesso que a anos atrás nunca imaginei que hoje poderia sofrer com esses transtornos…
    Confesso que hoje não sou nada do que fui um dia.. E a cada dia sinto minha falta.


Deixe o seu comentário!